Autor:

Sanderson Barbalho, PhD, PMP.

O contexto:

Perguntado sobre o que é o escopo do projeto a resposta é simples: o escopo é o que o projeto é. E o que o projeto é pode mudar ao longo do tempo. Mesmo em culturas mais rígidas, como a norte-americana, a alemã ou a japonesa, admite-se que o escopo muda. Na nossa cultura brasileira então, o escopo parece ser formatado para ser alterado com o tempo. Não que sejamos indisciplinados, mas a dinâmica da sociedade brasileira, nossa política e cultura implica em muito na formatação de projetos que mudam muito ao longo de sua execução.

A questão:

Nesse ambiente em que os projetos são constituídos tendo em vista uma alta possibilidade de mudança em seu escopo, como controlá-lo? E como saber a hora certa de alterá-lo? E o que fazer com as alterações?

O que a prática ensina:

1. Observe o risco de alterações de escopo no início do planejamento do projeto:

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 Apesar do ambiente cultural no Brasil ser ligeiramente diferente do que o Guia PMBOK prevê, em que há mais precisão na definição do escopo do projeto e, portanto, maior formalização no controle de mudanças deste, não se pode considerar que qualquer projeto deve ser tratado como um escopo sobre o qual mudanças ocorrerão. Uma usina hidrelétrica por exemplo é um projeto cujo escopo é bem definido e o risco de uma alteração causa impacto milionário. Assim como um estádio de futebol ou um ginásio para jogos olímpicos. Entretanto, essa não é a situação mais comum de ser encontrada em projetos no Brasil. Comumente, os projetos são menores, seu escopo é muito próximo ao conceito de objetivo – algo mais como interesse ou intenção e não algo entregável e mensurável como o escopo -, o impacto da mudança de escopo não é tão catastrófico e dada suas nuances e dificuldades inerentes, acabamos por definir sem tanta profundidade o escopo. A dica aqui é entender o risco de alteração de escopo no projeto já no planejamento inicial do trabalho. Fazendo isso, o gerente pode observar o andamento do projeto e verificar se há necessidade de mudança de escopo para atender a outros objetivos como custo, prazo, qualidade ou satisfação de alguma parte interessada que passe a ter hegemonia sobre o projeto.

2. O escopo precisa estar bem formalizado para ser controlado: Entender a conjuntura política e o aspecto cultural vinculado à definição do escopo do projeto não implica em ser menos formal na consolidação de tal escopo. Pelo contrário, implica em precisar de fato formalizar o que é considerado o escopo do projeto em seu início uma vez que especialmente os aspectos de custo e prazo estão vinculados ao escopo definido. A dica é utilizar o maior número de processos possível quanto maior for o risco de alteração do escopo, especialmente quanto maior for o risco em termos de impacto do escopo. Assim, em projetos do tamanho de uma hidrelétrica por exemplo o escopo deve estar detalhado em seus aspectos mais operacionais com dicionários da WBS bem delimitados. Projetos menores exigem menos rigor na definição, sempre observando o impacto da mudança do escopo.
 

3. Entenda o que muda se o teu escopo mudar: É preciso conhecer bem o que muda se o escopo mudar. Obviamente que as relações entre escopo, tempo e custo são bem  conhecidas havendo uma relação direta da mudança de um sobre o outro. Entretanto, há relações que não são tão óbvias e precisam ser tratadas a contento quando alterado o escopo. Por exemplo, pode ser que a mudança de escopo tenha relação com a entrada de um novo stakeholder com forte influência sobre o projeto, ou ainda a alteração de uma estrutura organizacional e a decorrente mudança na sua influência e coisas do gênero. Nesse caso a alteração de escopo vai implicar em novos canais, freqüências ou formato de comunicação e isso tem impacto em custo e pode exigir novos marcos com impacto em prazo. Pode haver uma mudança que implique na necessidade de envolver novos fornecedores no projeto, ou excluir fornecedores previamente selecionados, ou ainda em definição de realizar in-house operações que anteriormente seriam realizadas por terceiros. Em qualquer dos casos, impactos em custo e prazo devem ser avaliados. Outro elemento que sempre acompanha uma mudança de escopo é a definição dos requisitos do novo escopo e sua implicação em qualidade.
4. Monitore requisitos e dados de desempenho do projeto, mas principalmente, converse com os stakeholders:

As formas básicas de verificar se há necessidade de mudar o escopo do projeto é monitorando requisitos atendidos ou a atender e verificando dados de desempenho. Os requisitos orientam ao gerente sobre as atividades a realizar nas várias frentes de trabalho do projeto e em função das próximas entregas. Os dados de desempenho vão gerando evidências de como anda o projeto em termos de atender àqueles requisitos e as entregas a eles relacionadas. Esse é o receituário básico para verificar se há necessidade de mudar escopo. Entretanto, em um projeto no contexto brasileiro é fundamental que se realize uma ação mais direta para monitorar escopo: conversar com os stakeholders. Sim, levantar diretamente com os stakeholders, especialmente aqueles que vão se apoderando ao longo do projeto, qual seu grau de satisfação com o andamento do projeto e especialmente com as entregas realizadas e a realizar. Ou seja, pode ser que os dados de desempenho do projeto estejam atendendo requisitos, mas pode ser que a necessidade que deu origem ao projeto não se mantenha dentro da organização. Isso precisa ser detectado pelo gerente de forma proativa.
5. Realize uma mudança controlada e participativa do escopo:

A mudança de escopo precisa ser bem realizada, formal e participativamente. Isso significa que todos os  elementos do projeto que precisam ser ajustados ao novo escopo devem sê-lo de maneira formal. Ou seja, o plano de gerenciamento do projeto precisa ser todo ele revisado, e se considerado que algum elemento de risco surge com o novo escopo, devem ser formalizados documentos ou seções de controle de mudança que formalizem tais inserções. O Guia PMBOK sugere que o novo escopo deve ser formalizado. Todos os processos de controle implicam em mudanças nos documentos de projeto, entretanto, o Guia não menciona explicitamente que essa mudança de escopo precisa ser participativa. E isso é a maior demanda de mudança de escopo em um projeto realizado no contexto cultural brasileiro, ele precisa ser alterado participativamente. No Brasil, por mais que haja o respeito à liderança do gerente de projetos, não há uma cultura de respeito hierárquico que implique na liberdade do gerente alterar escopo, por mais que lhe seja óbvia a necessidade de mudança, sem que a equipe ou alguns stakeholders mais afetados pela mudança sejam chamados para participar de tal processo. Então, a dica é controle a mudança e a realize de maneira participativa. Inclusive, valide a documentação alterada com os stakeholders mais afetados.
 
6.Atente para as necessidades de alterações nas variáveis de contexto organizacional e base de conhecimento:

Apesar de não ser uma tarefa relativa apenas ao projeto que está sendo executado pelo gerente, observar alterações no contexto organizacional – seja vinculado à estrutura da empresa ou a variáveis de contexto externo que influenciam não só o projeto em tela, mas todos os projetos de uma dada categoria na organização – e sistematizá-las é um serviço importante que o gerente de projetos oferece à organização como um todo. Adicionalmente, sistematizar tais variações é tarefa que antecipa uma etapa posterior de formalização das lições aprendidas do projeto contribuindo para não deixar apenas para o final do ciclo de vida do projeto ou da fase essa compilação do conhecimento acumulado. As variáveis de contexto organizacional podem exigir uma sistematização mínima apenas, já que a política organizacional não é praxe que se transforme em texto escrito. Mas é importante que uma reflexão mais sistemática seja realizada pelo gerente e mesmo que sistematizá-la não seja praxe que seja compartilhada com os demais gerentes e líderes de projetos da sua área na organização. A base de conhecimento da empresa, especialmente os processos de trabalho e histórico de riscos associados aos projetos, precisa ser atualizada em função de alterações de escopo que reflitam mudanças significativas no contexto dos projetos na organização. 
 

Enfim:

Formalizar o escopo é fundamental para que este possa ser efetivamente controlado ao longo do projeto. Observar requisitos e dados de desempenho do projeto e suas entregas também é fundamental. Porém, imprescindível é conhecer e gerenciar os stakeholders do projeto, entender que no Brasil há uma cultura de ir definindo escopo ao longo do trabalho. Entender que a mudança é uma constante e que o ambiente organizacional implica em mudanças que podem afetar não apenas um projeto em específico, mas todos os projetos de uma determinada área de negócio ou tipologia. Atente-se a tais elementos e formalize as mudanças necessárias validando-as com aqueles que serão por elas afetados.
 

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